Os primeiros a povoar a região onde hoje está localizada Santa Maria foram índios minuanos e tapes. A origem da cidade, porém, está relacionada à instalação de um acampamento militar da Comissão Demarcadora de Terras, que tinha a função de fixar as fronteiras estabelecidas pelo Tratado de Santo Ildefonso, assinado entre Portugal e Espanha, em 1777. A região onde hoje é Santa Maria estava situada bem no limite entre as duas possessões.

A Comissão chegou pela primeira vez em 1787. Uma década depois, em 1797, estabeleceram acampamento definitivo em um largo que daria origem à Praça da Matriz, atual Praça Saldanha Marinho, e onde começou um trecho de via que após chamou-se Rua do Acampamento.

Em 1801, a Comissão Demarcadora foi dissolvida, mas o povoado que tinha se estabelecido ali permaneceu e continuou a crescer. Em 1819, Santa Maria é elevada ao 4º Distrito da Vila Nova de São João da Cachoeira, atual Cachoeira do Sul. Em 1837, virou Freguesia de Santa Maria da Boca do Monte e, vinte anos depois, chegou à categoria de vila. No ano seguinte, em 17 de maio de 1858, emancipou-se de Cachoeira do Sul e, em 1876, foi elevada à cidade.

A chegada da ferrovia, em meados de 1885, impulsionou o crescimento da cidade. Nesse ano foi concluído o assentamento dos trilhos da linha-tronco Porto Alegre-Uruguaiana até onde seria construída, posteriormente, a Estação Ferroviária de Santa Maria. A inauguração do trecho, conectando a cidade com a Capital, foi fundamental para o desenvolvimento social, econômico, cultural e populacional.

A posição estratégica de Santa Maria, no Centro do Estado, tornou-a um importante entroncamento ferroviário da Região Sul do país. Por conta disso, a cidade foi escolhida para sediar a Diretoria da Compagnie Auxiliare de Chemins de Fer au Brésil, companhia belga responsável pelo arrendamento da ferrovia.

Junto com a ferrovia, que conferiu velocidade e melhoria no sistema de transportes, surgiram residências, hotéis, novos estabelecimentos de indústria e comércio, além de outras melhorias como a instalação de iluminação elétrica e a publicação dos primeiros periódicos. Nos primeiros anos do século XX, foi construída a Vila Belga, conjunto habitacional destinado aos funcionários da Compagnie Auxiliare e, em 1913, foi criada a Cooperativa de Consumo dos Empregados da Viação Férrea. Posteriormente, também foram inauguradas a Escola de Artes e Ofícios Hugo Taylor e a Escola Santa Terezinha, atual Colégio Manoel Ribas, destinadas ao ensino e à formação dos filhos dos funcionários da ferrovia.

Tudo isso fez com que a cidade prosperasse muito na primeira metade do século XX, porém, com a decadência do sistema ferroviário, o perfil socioeconômico de Santa Maria começou a mudar. A implantação da Base Aérea e a criação da Universidade Federal de Santa Maria, em 1960, imprimiram novos ares à cidade, tornando-a um polo militar e educacional, características que perduram até hoje.

 

  

  

  

Fonte: Fotos do Acervo do Arquivo Histórico Municipal.

Conta a lenda que na tribo dos Minuanos - um dos grupos indígenas habitantes nas margens do riacho Itaimbé - vivia Imembuí, uma índia muito bonita, de tez clara, cabelos longos e olhos muito negros. Seu nome significa “a salva das águas”, pois ela nasceu quando sua mãe, a índia Yboquitã, banhava-se nas águas do arroio. Era uma jovem muito querida e admirada por todos de sua tribo e despertava interesse de jovens índios das tribos vizinhas.

Acangatu, um jovem índio da tribo dos Tapes, que habitava a outra margem do arroio Itaimbé, apaixonou-se por Imembuí. Para testemunhar seu amor e sua coragem, todos os dias, trazia-lhe uma caça como presente. Porém, a jovem índia tinha por ele somente afeição de irmã. Certo dia, encheu-se de coragem e disse a Acangatu o que sentia por ele. O índio, decepcionado, ferido em seu amor próprio, embrenhou-se na floresta e nunca mais foi visto.

Nessa época, um grupo de bandeirantes que regressava da Colônia do Sacramento, provavelmente, na segunda metade do século XVII, onde haviam ido levar provisões para a Guarnição Portuguesa, avistou a aldeia dos Minuanos e julgaram eles presa fácil. Pois, só avistaram ao longe, uma manada de cavalos, pacificamente pastando. Os bandeirantes costumavam apreender índios, escravizá-los e levá-los para São Paulo, a fim de trabalharem em lavouras.

De longe, viram apenas uma cavalhada tranquila. E atacaram a aldeia. Entretanto, surpreenderam-se: em cada cavalo, havia um guerreiro escondido no flanco oculto da montaria. Os minuanos, avisados por seu vigia do perigo que se avizinhava, em violenta carga dizimaram os atacantes. Os que não foram mortos, fugiram ou foram feitos prisioneiros.

O bandeirante português, Rodrigo, que estava entre os prisioneiros, foi também condenado à morte. O prisioneiro tocava uma música dolente no seu violão e cantava a saudade de sua terra e o destino triste que o levaria a um doloroso fim. Era um moço simpático e valente. Imembuí, ouvindo seu canto e admirando aquele rosto bonito, comoveu-se e sempre se aproximava dele para ouvi-lo cantar. Seu coração jovem e sensível apaixonou-se por Rodrigo, e sabendo do destino cruel que o aguardava, foi suplicar a seu pai, o Cacique Apacani, para que o poupasse da dura sorte.

Este, que não negava nem um pedido de sua filha, atendeu-a, tendo Rodrigo passado a viver com os índios. Foi realizado o casamento de Imembuí e Rodrigo, em grande festa, conforme o ritual indígena. A partir daí, Rodrigo passou a chamar-se Morotin. Casaram-se mais tarde nas Missões, onde também foi batizado o filho deles, José.

O indiozinho José tornou-se um jovem forte e corajoso, e começou a afastar-se de casa, exercitando-se como caçador. Sua mãe sempre o recomendava para que tomasse cuidado, pois, como ele ainda era um menino, poderia ser uma presa fácil a alguma fera faminta. Um dia, José embrenhou-se na mata para caçar e se perdeu. Não conseguiu encontrar o caminho de volta. Seus pais o procuraram por toda a parte em vão. O menino havia desaparecido. Talvez um animal o tivesse ferido, ou sido picado por uma cobra venenosa. Imembuí muito chorou e desaparecimento de seu filho.

José, perdendo o caminho de casa, foi andando, andando pela mata, até que anoiteceu. Aconchegou-se no oco de uma árvore, abrigando-se do frio e das feras e aí passou a noite. E no dia seguinte, continuou a andar. Muito andou, até que chegou às margens de um grande rio, encontrando uma choupana, habitada por um índio que o acolheu.

Conversando com o índio, José contou-lhe sua história. O homem, comovido, dispôs-se a ajudá-lo, e o conduziu de volta até a aldeia. Imembuí e Morotin, agradecidos ao homem que encontrara o seu filho, convidaram-no a participar da alegria de toda a tribo. Reconheceram, nesse homem, o índio Acangatu que já havia se curado de sua paixão por Imembuí. De acordo com essa lenda, Santa Maria teve sua origem no amor que uniu uma índia e um branco, nas margens do Arroio Itaimbé, que hoje corre canalizado sob o calçamento do Parque Itaimbé.